Exumação de Jango gera protestos de moradores de São Borja (RS)
A possibilidade de remoção dos restos mortais do ex-presidente João
Goulart (1961-1964), que serão exumados a pedido da família para
investigar a possibilidade de envenenamento, causaram reação em São
Borja, cidade onde Jango está sepultado. A prefeitura, com o apoio da
Câmara de Vereadores, promete ir à Justiça para garantir o retorno da
ossada à cidade depois do processo de exumação, que está sendo
coordenado pela Polícia Federal.
O temor da comunidade é de que a transferência dos restos mortais a
Brasília, para coleta de material, determine a permanência do corpo no
memorial planejado a João Goulart na capital federal. A exumação ainda
não tem data para ocorrer, mas o grupo que planeja o procedimento já
decidiu que a perícia será realizada na sede do Instituto Nacional de
Criminalística, em Brasília.
Na manhã desta quarta-feira, o governo federal deu início ao processo
de exumação, decidido em abril pela Comissão Nacional da Verdade, com o
reconhecimento do local onde está sepultado o ex-presidente. Uma reunião
com os peritos da Polícia Federal, integrantes da Comissão Nacional da
Verdade e da Secretaria de Direitos Humanos e representantes da
prefeitura definiu que o acesso ao local para reconhecimento será feito a
partir das 14h.
Cena
do documentário "Dossiê Jango", de Paulo Henrique Fontenelle. O diretor
reapresenta a vida e morte de João Goulart, presidente brasileiro que
foi deposto pelo golpe militar de 1964. O longa aborda fatos pouco
esclarecidos na história do país Divulgação / Canal Brasil
A preocupação do prefeito de São Borja, Farelo Almeida (PDT), é com a
transparência do processo de exumação. Almeida disse que o ingresso de
técnicos da polícia no cemitério municipal é prerrogativa do prefeito,
já que o mausoléu é patrimônio histórico da cidade. "Nesta primeira
reunião oficial, queremos expressar receio pela forma como o processo
está sendo conduzido", disse.
"Inconformidade"
"São Borja não foi ouvida sobre a remoção dos restos mortais. Pedimos
que seja mais transparente possível, para que a comunidade saiba o que
vai acontecer." Almeida não descartou uma ação judicial para garantir o
retorno da ossada ao município ou até mesmo para barrar a exumação.
Os vereadores da cidade divulgaram uma carta aberta em que manifestam
"inconformidade" com a transferência, segundo eles injustificável. "Não
há motivação técnica ou científica para se realizar o transporte a
Brasília, pois o exame poderia ser realizado em São Borja, Porto Alegre
ou qualquer parte do mundo", expressa o documento. A carta foi assinada
pelos 15 vereadores da cidade.
O perito-chefe da Polícia Federal, Amaury de Souza Júnior, descartou
transferir estruturas técnicas para São Borja como forma de evitar a
transferência dos restos mortais. Segundo ele, 37 anos depois da morte
do ex-presidente é difícil "até exame de DNA".
Souza Júnior advertiu que podem ser necessárias mais de uma coleta para
garantir a qualidade da análise toxicológica, para determinar se de
fato houve envenenamento ou se Jango morreu de causas naturais. O
ex-presidente morreu no exílio na Argentina, na noite de 6 de dezembro
de 1876.
14.ago.2013
- Em sessão das comissões Nacional e Estadual da Verdade no Rio, o
advogado José Carlos Tórtima (à direita) acusa o major Walter Jacarandá
de tê-lo torturado durante a ditadura militar (1964 - 1985). "Nunca é
tarde, major, para o senhor se conciliar com essa sociedade ultrajada
por essas barbaridades que pessoas como o senhor cometeram", afirmou
Tórtima. O militar admitiu ter participado de sessões de tortura no
DOI-Codi, no Rio. Foram ouvidos seis ex-presos políticos que foram
presos e torturados nas dependências do DOI-Codi, localizado na rua
Barão de Mesquita, na Tijuca. A audiência pública tratou da morte, no
mesmo local, de Mário Alves, líder do PCBR (Partido Comunista Brasileiro
Revolucionário), em 1970.
Mausoléu
"A manutenção da ossada em São Borja pode aumentar o custo do
procedimento. Nosso planejamento é permanecer com os restos mortais por
um tempo específico e depois o corpo retorna. A transferência de
estrutura não é viável", afirmou o perito.
O representante da Secretaria Nacional de Direitos Humanos, Gilles
Gomes, garantiu que a ossada de Jango retornará ao município. "A
ministra acabou de me ligar e autorizar o compromisso do governo, que é o
compromisso da presidente Dilma Rousseff, de que os restos mortais
voltarão ao mausoléu da família e a São Borja", disse.
O neto de Jango, Chistopher Goulart, se comprometeu a assinar um
documento garantindo que os restos mortais voltarão à cidade depois da
análise. A solução do impasse, entretanto, foi resolvida com a decisão
de realizar uma audiência pública na cidade para debater a exumação. A
audiência ainda não tem data, mas servirá como um compromisso público de
que os restos mortais de Jango retornarão a São Borja.
Do UOL, em Porto Alegre

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